A memória ainda pode mudar (presente ou ausente, ainda dá tempo)

    A memória de um filho não está fechada — nem pra quem estava em casa, nem pra quem se afastou. Você não muda o passado; muda o que vem a partir de hoje. E a gente sente.

    A memória ainda pode mudar (presente ou ausente, ainda dá tempo)
    Foto por Kelli McClintock na Unsplash

    Essa semana se falou de coisas difíceis — do que os filhos veem quando o pai ou a mãe está presente e bebe, e do vazio de quando esse pai ou mãe não esteve lá. Eu fui um desses filhos. Então deixa eu fechar com a parte que mais demorei a entender. É um recado pra quem é pai e pra quem é mãe — inclusive pra quem se afastou e tá lendo isso com um aperto no peito.

    A memória não está fechada

    A gente cresce achando que a infância é um livro já escrito. Que o que ficou, ficou. Mas não é assim — nem pra quem esteve em casa, nem pra quem saiu dela.

    A memória de um filho continua sendo escrita todo dia. Ela não congela no pior dia, nem na porta que se fechou. Cada gesto novo entra na conta: um domingo inteiro presente, um "me desculpa" dito de verdade, uma promessa pequena que dessa vez foi cumprida, um telefonema que voltou depois de anos. Nada disso apaga o que passou. Mas tudo isso muda o peso do que passou.

    Pra quem estava lá — e pra quem não estava

    Se você estava presente e tem medo de ter pesado nos dias difíceis: a mesma sensibilidade que registrou o clima ruim registra você inteira agora. Dá pra virar o jogo de dentro de casa.

    E se você se afastou — se o álcool te levou pra longe e você acha que já era, que perdeu o bonde, que não tem mais lugar nessa história: tem, sim. Tarde não é o mesmo que nunca. Existe um caminho velho e testado pra isso, que a recuperação conhece bem — fazer as pazes, reparar diretamente o que dá pra reparar, voltar a aparecer. Não pra apagar o que houve. Pra escrever o que ainda falta.

    Você não muda o passado. Muda o que vem a partir de hoje.

    Eu sei que tem uma vontade de voltar atrás e consertar. Não dá — e ficar preso nisso só rouba a energia do que ainda é possível. O passado não está nas suas mãos. O resto da história, está.

    E vale dizer com todas as letras, porque do lado de cá a gente sente: a gente percebe quando vocês mudam. Com a mesma força com que sentiu o resto. O filho que aprendeu a ler o clima ruim lê o clima bom voltando na mesma velocidade. O filho que ficou esperando na cadeira vazia percebe na hora quando ela deixa de estar vazia. Aquela sensibilidade toda que doeu é, de repente, a coisa que te dá a chance.

    A real: o que eu mais lembro não é o pior

    Queria deixar isso aqui porque é verdade pra mim, e talvez seja o que você precisa ouvir hoje: o que eu mais lembro não é o pior. É de quando ele tentou voltar.

    Não é que o difícil sumiu. É que parou de ser o personagem principal. O que ganhou força foi a virada — o esforço, a presença que reapareceu, os dias em que dava pra confiar de novo. Guarda essa, porque ela é sua: a parte que você constrói a partir de agora pode, sim, virar a lembrança mais forte.

    Não precisa ser de uma vez, nem sozinho, nem perfeito

    Se você chegou até aqui, provavelmente já está fazendo a conta de tudo que precisa "consertar". Respira. Não é assim. Não precisa ser de uma vez. Não precisa ser perfeito. E, principalmente, não precisa ser sozinho.

    O que muda a memória de um filho não é o gesto heroico. É a consistência — um passo previsível por vez. Estar mais ou menos igual amanhã. Aparecer. Cumprir o pequeno. Voltar a ligar. É isso que reorganiza o que ficou.

    E quando você não souber por onde começar — porque ninguém começa sabendo — existe gente e existe lugar pra isso. No seu tempo, sem ninguém te julgando, sem ter que ter tudo resolvido pra dar o primeiro passo. O primeiro passo, aliás, cabe num dia.

    Ainda dá tempo. Sempre deu. E vindo de quem foi o filho: vale cada dia que você escolher estar — ou voltar a estar — aqui.


    Fundamentos: a reparação e a consistência reorganizam a memória afetiva (Ed Tronick, rupture-and-repair); a reparação tardia é prática estruturada da recuperação (A.A., Passos 8 e 9); papéis aprendidos na infância podem ser desaprendidos (literatura ACOA/ACA).

    Foto de Gabriel Moma
    Gabriel MomaConvidado