O filho do pai que não esteve lá

    Tem pai que bebe e fica. Tem pai que bebe e some. O vazio também marca — e tem nome. De um filho, sem culpa e sem rancor.

    O filho do pai que não esteve lá
    Foto por abdullah ali na Unsplash

    Tem pai que bebe e fica. Tem pai que bebe e some. Eu fui filho do segundo.

    Escrevo na primeira pessoa porque a maioria das histórias sobre filhos de quem bebe parte de uma casa onde o pai ou a mãe está ali — o tom da voz na sala, o clima pesado no jantar. E é verdade, isso marca. Mas tem outra história, talvez mais comum nas famílias mais simples: a do pai que se afastou. Que bebia e foi sumindo. A mãe criou sozinha. E o que ficou pra mim não foi uma presença difícil — foi uma ausência.

    Não foi o que ele fez. Foi o que faltou.

    A minha lembrança não é de uma noite ruim. É de uma cadeira vazia. Da reunião de pais que só a minha mãe ia. Do Dia dos Pais na escola, quando todo mundo fazia um cartão e eu não sabia muito bem pra quem. Da roda de amigos falando "meu pai isso, meu pai aquilo" e de mim ali, calado, sem material pra entrar na conversa.

    Ninguém me bateu a porta na cara. Foi mais silencioso que isso. Foi uma falta que ninguém nomeava — e que, justamente por não ter nome, ocupava tudo.

    O vazio também tem peso — e tem nome

    Demorei pra entender que aquilo não era "nada". Tem nome: chama-se luto ambíguo. É o luto de uma perda sem desfecho — a pessoa não morreu, está em algum lugar, mas não está com você. Então você não chora um fim; você fica num meio que não fecha. Esperando sem saber o quê. Imaginando como teria sido.

    É por isso que pesa tanto, e por tanto tempo: não tem enterro pra uma ausência. Não tem ponto final. Você cresce carregando uma pergunta que nunca teve resposta.

    O que a criança faz com o silêncio

    E aqui acontece o de sempre: quando ninguém explica, a criança preenche. Eu preenchi do jeito que toda criança preenche — virando o centro da história. "Se eu fosse mais fácil, ele tinha ficado." "Se eu fosse motivo suficiente, ele teria voltado."

    Então deixo aqui o que ninguém me disse na época, e que eu precisei de anos pra acreditar: não foi culpa sua. Você era criança. Não cabia a você ser bom o bastante pra fazer um adulto ficar. A escolha — e a doença por trás dela — era dele, não sua.

    Não vim acusar meu pai

    Esse texto não é pra colocar chifre em ninguém. Hoje eu entendo que ele tinha a própria batalha, e que o álcool engole pai antes de engolir filho. Dá pra segurar as duas coisas ao mesmo tempo: entender que ele estava doente e, ainda assim, sentir a falta que a ausência dele deixou. Uma coisa não anula a outra. Nomear o vazio não é fazer dele um vilão — é fazer justiça ao que eu senti.

    A falta pode ser ressignificada

    A parte que mudou as coisas pra mim foi descobrir que o vazio não precisa ser o personagem principal pra sempre. Ele não some — mas para de mandar na história. Dá pra nomear, dá pra colocar pra fora, dá pra elaborar com gente que viveu o mesmo. E aí ele vira só um capítulo, não o livro todo.

    Se você cresceu com essa cadeira vazia, queria que você ouvisse o que eu queria ter ouvido: você não está sozinho nisso. Tem muito mais gente carregando essa mesma falta calada do que parece — e dividir já tira metade do peso.

    Eu não tive o pai que queria. Mas aprendi que dá pra parar de esperar a versão dele que nunca veio — e cuidar do filho que ficou esperando. Esse, sim, ainda está aqui.


    Fundamentos: a ausência como perda sem fechamento — conceito de luto ambíguo (Pauline Boss); a auto-culpa infantil diante do silêncio — framework dos "Cs" da NACoA (a criança não Causou / Controla / Cura); papéis aprendidos na infância podem ser desaprendidos (literatura ACOA/ACA).

    Foto de Fábio Mota
    Fábio MotaConvidado